A família de Gult estava radicada em Adebar há mais de cento e cinqüenta anos, desde que seu avô escolhera o país por ser o mais distante possível de seu país de origem. Seu bisavô, o último rei de Ainereth, tinha sido assassinado em uma conspiração liderada pela principal família do antigo império, os Hophtymus. Ateniz Hophtymus atirou no peito do rei Hedli, no meio de uma cerimônia.
O país caiu na anarquia junto com o corpo do rei Hedli. Embora fosse uma figura de destaque no reino, o príncipe Sumbom não conseguiu manter a unidade do país. Três dias depois da trágica morte do rei, e mesmo antes da coroação de Sumbom, Nolithper invadiu Ainereth.
Não foi uma simples invasão, mas um extermínio completo. As tropas de Nolithper massacravam cidades inteiras, matando mulheres, crianças, idosos, inválidos. Depois que as tropas passavam por algum lugar ele se tornava um verdadeiro deserto.
A invasão ocorreu em um momento político e social extremamente delicado. As várias facções do parlamento ainerethiano não admitiam que o príncipe Sumbom assumisse o trono do pai. O assassinato, cometido por um Hophtymus, criou ampla revolta na população, e uma perseguição implacável contra os membros da família.
Em pouco tempo as tropas invasoras chegaram à capital e cercaram o palácio Subele, sede do governo de Ainereth. Sem as mínimas condições de vencer os invasores, nada restou ao príncipe Sumbom senão se render e partir do país com sua esposa e filhos.
Escolher um novo lar também não foi uma tarefa fácil para o príncipe. Muitos países eram inimigos declarados de Ainereth desde que Nolithper tinha invadido e anexado Northboghy. Não eram inimigos por convicção, mas por temor do poderio de Nolithper. Outros países eram neutros, mas neles o príncipe não se sentiria bem, pois vários tinham desafiado a liderança moral de seu pai. pai. Resolveu ir para Adebar.
Ao fazer esta escolha, o príncipe escolheu muito mais do que um simples novo lar. Ele não estava escolhendo apenas um local seguro para sua esposa e filhos, um local longe de conflitos e guerras. Assim como seu pai, o príncipe sabia que não se pode viver sem que, em algum momento, algum conflito bata à nossa porta. O que Sumbom estava escolhendo era uma nova vida e uma nova direção para a família Kissiff, sua família. Sua intenção era romper com o passado de seus ancestrais, da responsabilidade que levou seu pai a ser assassinado depois de ter dedicado sua vida inteira por todos, até mesmo pela família do assassino.
Esta não era uma escolha agradável, nem compreensível. Sua esposa, a princesa Defacc, sempre estivera ao seu lado, descendia de família nobre de Acnarf. Tinha sido cogitada para casamento com o herdeiro do trono de Nolithper, a nação mais poderosa da atualidade, mas declinou do convite por amor à Sumbom, príncipe de um país muito pequeno, pobre e cheio de desafios.
A jovem Defacc forjou nos dois filhos, Flurne e Khoma, um caráter de ferro, necessário aos tempos em que vivia. Ela sabia que um deles, um dia, ocuparia o lugar do avô, o rei Hedli, e teriam tantos desafios quanto o próprio avô teve. Ela mesma sabia que vivia em tempo difícil, uma época de guerra, dias nos quais tudo poderia mudar rapidamente. No passado, não foi incomum esposas dos reis da família Kissiff terem que assumir o trono ou mesmo liderar missões para resgatar seus maridos das mãos de inimigos. Se sua família, ou o país precisassem, ela estaria preparada. Como convencer uma mulher assim a esquecer tudo e viver em um país distante? Viver a vida de uma mulher comum, justamente o que ela nunca tinha sido? E como convencer os jovens príncipes de que não seriam mais sucessores de nada, e que a família passaria a ser uma família como qualquer outra?
A família, contudo, acabou aceitando a escolha de Sumbom. Ele tinha se esquecido que em suas veias corria o sangue dos Kissiff, uma família nobre conhecida pela sua devoção ao que considerasse sua obrigação. Os Kissiff sempre tiveram uma grande capacidade para resistir às frustrações de sua caminhada, e não tinham a menor dificuldade para se submeter às piores condições e circunstâncias. Não seria agora que o que restara da família do rei Hendli se rebelaria contra o destino.
Foi assim, unidos por uma escolha, que os Kissiff entraram em Adebar. Foram recebidos pela família imperial que os acolhera como se fossem cidadãos do país. O imperador sabia que Hedli não tinha sido um rei qualquer, e que mesmo Sumbom não tinha sido um príncipe comum. Sua vontade era tornar os Kissiff parte da nobreza do país, ter a experiência de Sumbom perto de si. Mas esta não era a vontade do príncipe. Depois de algum tempo desfrutando da hospitalidade imperial, a família inteira se retirou para uma pequena cidade no interior do país, para viver como pessoas simples.
Trinta anos depois de chegar à Adebar, Sumbom faleceu. Um ano antes, suas mãos tinham fechado os olhos de sua esposa. Ao redor de seu leito estavam Flurne e Khoma, suas esposas, e seus filhos. Flurne já tinha apenas um filho, Gult, primeira geração dos Kissif nascida fora de Ainereth


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