CAPITULO II

Blog de observatorio-luciano :OBSERVATÓRIO LUCIANO, CAPITULO II

A família de Gult estava radicada em Adebar há mais de cento e cinqüenta anos, desde que seu avô escolhera o país por ser o mais distante possível de seu país de origem. Seu bisavô, o último rei de Ainereth, tinha sido assassinado em uma conspiração liderada pela principal família do antigo império, os Hophtymus. Ateniz Hophtymus atirou no peito do rei Hedli, no meio de uma cerimônia.

 

O país caiu na anarquia junto com o corpo do rei Hedli. Embora fosse uma figura de destaque no reino, o príncipe Sumbom não conseguiu manter a unidade do país. Três dias depois da trágica morte do rei, e mesmo antes da coroação de Sumbom, Nolithper invadiu Ainereth.

 

Não foi uma simples invasão, mas um extermínio completo. As tropas de Nolithper massacravam cidades inteiras, matando mulheres, crianças, idosos, inválidos. Depois que as tropas passavam por algum lugar ele se tornava um verdadeiro deserto.

 

A invasão ocorreu em um momento político e social extremamente delicado. As várias facções do parlamento ainerethiano não admitiam que o príncipe Sumbom assumisse o trono do pai. O assassinato, cometido por um Hophtymus, criou ampla revolta na população, e uma perseguição implacável contra os membros da família.

 

Em pouco tempo as tropas invasoras chegaram à capital e cercaram o palácio Subele, sede do governo de Ainereth. Sem as mínimas condições de vencer os invasores, nada restou ao príncipe Sumbom senão se render e partir do país com sua esposa e filhos.

 

Escolher um novo lar também não foi uma tarefa fácil para o príncipe. Muitos países eram inimigos declarados de Ainereth desde que Nolithper tinha invadido e anexado Northboghy. Não eram inimigos por convicção, mas por temor do poderio de Nolithper. Outros países eram neutros, mas neles o príncipe não se sentiria bem, pois vários tinham desafiado a liderança moral de seu pai. pai. Resolveu ir para Adebar.

 

Ao fazer esta escolha, o príncipe escolheu muito mais do que um simples novo lar. Ele não estava escolhendo apenas um local seguro para sua esposa e filhos, um local longe de conflitos e guerras. Assim como seu pai, o príncipe sabia que não se pode viver sem que, em algum momento, algum conflito bata à nossa porta. O que Sumbom estava escolhendo era uma nova vida e uma nova direção para a família Kissiff, sua família. Sua intenção era romper com o passado de seus ancestrais, da responsabilidade que levou seu pai a ser assassinado depois de ter dedicado sua vida inteira por todos, até mesmo pela família do assassino.

 

Esta não era uma escolha agradável, nem compreensível. Sua esposa, a princesa Defacc, sempre estivera ao seu lado, descendia de família nobre de Acnarf. Tinha sido cogitada para casamento com o herdeiro do trono de Nolithper, a nação mais poderosa da atualidade, mas declinou do convite por amor à Sumbom, príncipe de um país muito pequeno, pobre e cheio de desafios.

 

A jovem Defacc forjou nos dois filhos, Flurne e Khoma, um caráter de ferro, necessário aos tempos em que vivia. Ela sabia que um deles, um dia, ocuparia o lugar do avô, o rei Hedli, e teriam tantos desafios quanto o próprio avô teve. Ela mesma sabia que vivia em tempo difícil, uma época de guerra, dias nos quais tudo poderia mudar rapidamente. No passado, não foi incomum esposas dos reis da família Kissiff terem que assumir o trono ou mesmo liderar missões para resgatar seus maridos das mãos de inimigos. Se sua família, ou o país precisassem, ela estaria preparada. Como convencer uma mulher assim a esquecer tudo e viver em um país distante? Viver a vida de uma mulher comum, justamente o que ela nunca tinha sido? E como convencer os jovens príncipes de que não seriam mais sucessores de nada, e que a família passaria a ser uma família como qualquer outra?

 

A família, contudo, acabou aceitando a escolha de Sumbom. Ele tinha se esquecido que em suas veias corria o sangue dos Kissiff, uma família nobre conhecida pela sua devoção ao que considerasse sua obrigação. Os Kissiff sempre tiveram uma grande capacidade para resistir às frustrações de sua caminhada, e não tinham a menor dificuldade para se submeter às piores condições e circunstâncias. Não seria agora que o que restara da família do rei Hendli se rebelaria contra o destino.

 

Foi assim, unidos por uma escolha, que os Kissiff entraram em Adebar. Foram recebidos pela família imperial que os acolhera como se fossem cidadãos do país. O imperador sabia que Hedli não tinha sido um rei qualquer, e que mesmo Sumbom não tinha sido um príncipe comum. Sua vontade era tornar os Kissiff parte da nobreza do país, ter a experiência de Sumbom perto de si. Mas esta não era a vontade do príncipe. Depois de algum tempo desfrutando da hospitalidade imperial, a família inteira se retirou para uma pequena cidade no interior do país, para viver como pessoas simples.

 

Trinta anos depois de chegar à Adebar, Sumbom faleceu. Um ano antes, suas mãos tinham fechado os olhos de sua esposa. Ao redor de seu leito estavam Flurne e Khoma, suas esposas, e seus filhos. Flurne já tinha apenas um filho, Gult, primeira geração dos Kissif nascida fora de Ainereth

 

sábado 19 setembro 2009 20:06


CAPÍTULO I - ESCOLHAS

Blog de observatorio-luciano :OBSERVATÓRIO LUCIANO, CAPÍTULO I - ESCOLHAS

Até onde uma pessoa pode se afastar de si mesma antes de se perder totalmente? Há distâncias longas demais para o retorno, podemos nos perder de nós mesmos, daquilo que sempre soubemos ser, de nossas certezas e convicções. A distância pode ser tão longa que nosso eu do passado jamais reconheceria o do presente.

 

Olhando as calmas ondas do mar, visíveis das janelas de seus aposentos, Gult refletia sobre sua própria vida, imaginando se não tinha chegado longe demais a ponto de não mais poder ser quem sempre foi. Ele se sentia como uma pequena embarcação que, querendo apenas se afastar um pouco da praia, fora lançada em alto mar, sem saber onde estava e para onde ir. Às vezes a distância pode ser tão longa que sequer sabemos para onde queríamos ir, onde gostaríamos de chegar e para onde gostaríamos de voltar.

 

Se alguém pudesse vê-lo naquele momento jamais imaginaria que o homem que representava a segurança de todo um povo estava mergulhado no sentimento de solidão, deslocamento e frustração. Gult não sabia que homem tinha se tornado, não tinha certeza de gostar dele e se sentia triste por saber que jamais voltaria a ser o homem que tinha sido antes.

 

Estava em um país no qual não tinha nascido, mas que era seu por ter sido de seus antepassados, principalmente de seu bisavô. Estava longe do país no qual não somente seu pai e ele tinham nascido, mas também seus filhos. Um país ao qual servira como bom soldado, mas que sempre disseram não ser sua nação. Gult ocupava um posto para o qual todos disseram que ele tinha nascido, embora estivesse ali quase por acidente. Seu primeiro impulso foi recusar, mas o preço da recusa seria alto demais, pois há momentos em que não nos é permitido negar alguma coisa.

 

E se tivesse se recusado? A escolha teria caído sobre seu filho, sua família seria fragmentada, um rei fraco dirigia uma nação cheia de inimigos. Feita a escolha, outras vieram, todos os dias, a cada momento. Gult já sabia, era um homem experiente, mas sentiu com mais severidade que viver é fazer escolhas a todo momento, e não somente fazê-las, mas enfrentar as conseqüências dessas mesmas escolhas. Não há como viver sem escolher, e mesmo quem tentar se abster já escolheu. Quem escolhe pode ao menos se consolar com a possibilidade de prever o que acontecerá, se torna ator de todo o processo. Quem se abstém, na tentativa de não escolher, já escolheu e retirou de si mesmo a oportunidade de tentar influenciar nas conseqüências. Pode até ser que tenha se distanciado demais de si mesmo ao fazer a escolha, mas Gult sabia que tinha que ser assim, e assim seria até aquele momento em que todos os homens ficam finalmente livres da obrigação de fazer escolhas.

 

Seus pensamentos foram interrompidos por um leve bater na porta. Ele não precisou responder ou abri-la: “Pai, posso entrar? Está ocupado?”. Gult estava de costas, por isso Arib não pôde ver o sorriso do pai.

 

- Nunca estou ocupado para vocês, meu filho, você sabe disso. Gult se virou e, sorrido, recebeu o filho com um abraço, um abraço que o fez se esquecer de estar perdido de si mesmo.

- Disseram-me que um rei vive sempre ocupado, disse Arib sorrindo e logo se sentando de frente ao lugar onde o pai já tinha se sentado.

- Se ouvir tudo o que lhe disserem talvez você jamais chegue a ser rei, e se chegar, talvez não consiga governar. Por um momento, Arib pensou que o pai estivesse falando gravemente, mas bastou os olharem se cruzarem para os dois começarem a gargalhar.

 

O bom humor era uma das marcas de Gult, o que era algo surpreendente para alguém que tinha ocupado posições severas e graves, cargos solenes, e que tinha enfrentado circunstâncias terríveis ao longo da vida. Nunca se via Gult gritando, com o aspecto grave ou solene. Ele sabia tirar um sorriso de quem quer que fosse, em qualquer momento ou circunstância. Dizia que o sorriso não somente deixa a pessoa mais leve, mas ajuda a resolver os problemas. E naquele momento ele precisaria de muito sorriso.

 

- E então pai? O que você decidiu? Agora que o parlamento deu a autorização, todos aguardam sua decisão final sobre a intervenção nesse conflito.

- Um conflito que não é nosso, que nasceu de um assunto que não nos diz respeito, envolvendo pessoas que nunca nos ajudaram ou nos ajudariam. Gult ia se servir, mas Arib fez sinal de que o chá já estava frio demais.

- Nossos generais deram garantia de vencermos o conflito sem perdas significativas. Aibará não tem poder suficiente para nos vencer, e Poreh terá que finalmente se curvar à realidade. Nunca mais poderá desprezar Ainereth. Os outros países também passarão a nos respeitar. Não creio que nem mesmo Nolithper tenha coragem de entrar no conflito contra nossas tropas. Os olhos de Arib brilhavam durante seu relato. Mesmo sabendo que guerra não é uma brincadeira, o príncipe queria ajudar o pai, não por ser o herdeiro de sua coroa, mas por amor. Sabia o peso que recaia sobre os ombros de Gult, queria ajudá-lo a carregar.

- Não sei o que seria pior, Arib, vencer ou perder. Este conflito foi criado por Rampat somente por um motivo: testar o real poder militar de Ainereth. Depois de nossa intervenção em Acnarf, todos passaram a nutrir especulações acerca de nosso real poderio. É isso o que eles querem saber: até onde podem nos desafiar e até onde podemos nos defender. Não há outro motivo para este conflito aparentemente irracional.

 

- E por que não podemos mostrar definitivamente nosso poderio? Por que não podemos mostrar a todos que não podem mais nos desafiar? Isso traria segurança e respeito para Ainereth, não é? Nosso povo seria mais respeitado, teria mais segurança. Arib falava como se tivesse firme convicção no que dizia, mas procurava nos olhos do pai a confirmação de sua certeza.

- Será que vencer Aibará seria realmente uma vitória? Mostrar nosso poder seria realmente útil? Não estou plenamente convencido disso. Vencer traz responsabilidades bem maiores que perder. Vencer não é somente derrotar um adversário, reduzir seus movimentos. Vencer é bem mais que isso. Vencer é se livrar daquilo que quer lhe aprisionar. Se ao ser derrotado, um inimigo consegue lhe envolver em uma teia de circunstâncias que você não escolheu, então você não venceu: foi vencido.

- Você fala como se tivesse dúvidas sobre nossa capacidade.

- Não, não duvido de nossa capacidade, mas sinto que este conflito é perigoso demais pelo que não mostrar ser. Sabemos como entrar nele, mas não sabemos ainda como vamos sair. Não sabemos se ele envolverá somente Aibará, se teremos que ocupar Poreh, se Nolithper intervirá ou não. E se Nolithper invadir outros países? Já pensou se Adebar foi invadida? Não teríamos escolha, teríamos que intervir. Em quantos outros mais teríamos que intervir? Por quanto tempo? Seriamos transformados em um país interventor? Seríamos a polícia do mundo?

Enquanto falava, Gult se levantou em direção ao mapa emoldurado em sua parede. O mapa, iluminado o suficiente para mostrar cada detalhe, mostrava todos os países conhecidos. Gult olhava para ele como quem tenta decifrar um enigma antes de fazer uma escolha.

Arib se levantou, queria apresentar mais argumentos, pois os tinha em grande quantidade e qualidade, mas sentiu ser momento de respeitar as ponderações do pai. Aprendera que, em certos momentos, Gult não falava somente aos seus interlocutores, mas a si mesmo. Era como se ele utilizasse os interlocutores como representações de si mesmo, aos quais apresentava seus argumentos na tentativa de tê-los de volta aperfeiçoados. Uma vez, Arib ouvira o pai dizer que seu pior inimigo era ele mesmo, mas nunca entendeu o que o pai quis dizer de verdade. Naquele quarto, sabia apenas que o pai estava menos refutando suas argumentações que procurando convencer a si mesmo da escolha a ser feita.

- Tenho receio de ir longe demais, meu filho! Gult só chamava seus filhos de “meus filhos” em momentos de profunda reflexão.Não era uma forma de por em evidência sua posição de pai, mas sim de destacar a importância da posição dos filhos. Ra a forma mais respeitosa com a qual Gylt se dirigia aos seus filhos.

- Algumas escolhas podem nos levar longe demais, tão longe que não podemos mais encontrar o caminho de volta. Se nos afastarmos de nós mesmos, e não conseguirmos voltar, quem terá sido vencedor afinal?

sábado 25 julho 2009 22:16



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